Colunata de edifício judiciário ao entardecer

JOTA · 10 de setembro de 2026

PEC do Banco Central corre o risco de ser engavetada no Senado

A proposta que altera a autonomia do Banco Central perde força no Senado sob a oposição do governo. As demandas de carreira dos servidores devem ser discutidas em projetos separados.

Referência: JOTA

A Proposta de Emenda à Constituição que visa conceder autonomia financeira e orçamentária ao Banco Central (PEC 65/2023) enfrenta forte resistência e corre o risco de não ser votada no Senado Federal. Com a oposição declarada do governo federal, o texto perdeu força política, o que abre espaço para que as demandas salariais e de carreira dos servidores da autarquia sejam desvinculadas da reforma constitucional e tratadas em projetos de lei específicos.

A proposta tem como objetivo transformar o Banco Central de autarquia federal em uma empresa pública com regime especial. Na prática, essa mudança daria à instituição o poder de gerir seu próprio orçamento e definir a contratação de pessoal, mas também alteraria o regime jurídico dos servidores.

O impasse político e a oposição do governo

O Palácio do Planalto e as lideranças governistas no Congresso Nacional demonstram preocupação com a perda de controle sobre o orçamento de uma instituição tão central para a economia. A equipe econômica do governo argumenta que a transformação do órgão em empresa pública pode criar um precedente complexo e reduzir a supervisão do Executivo sobre a autoridade monetária.

Diante dessa oposição, o relator da matéria no Senado tem encontrado dificuldades para angariar os votos necessários para a aprovação. Para que uma PEC seja aprovada, são necessários três quintos dos votos dos senadores em dois turnos de votação, um quórum elevado que exige amplo consenso político.

O impacto no regime jurídico dos servidores

Um dos pontos mais polêmicos da PEC 65/2023 é a mudança no regime de contratação dos trabalhadores do Banco Central. Atualmente, os servidores são regidos pelo Regime Jurídico Único (RJU), que garante a estabilidade prevista no artigo 41 da Constituição Federal.

Caso a PEC fosse aprovada nos termos originais, os novos contratados seriam regidos pela Consolidação das Leis do Trabalho (CLT). Embora o texto trouxesse regras de transição para os atuais servidores estatutários, a categoria demonstrou forte preocupação com a perda de garantias históricas e com a divisão interna que o modelo de dupla contratação poderia gerar.

Desmembramento das pautas da categoria

Com a possibilidade de engavetamento da PEC, o debate sobre a valorização das carreiras do Banco Central deve seguir um caminho diferente. Representantes dos servidores e parlamentares articulam para que as reivindicações de reestruturação de carreira e recomposição salarial sejam transferidas para outros projetos de lei em tramitação ou para novas negociações com o Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos (MGI).

Essa separação é vista de forma positiva por setores da categoria, que temiam que as melhorias salariais ficassem travadas por tempo indeterminado devido à complexidade política de aprovar uma emenda à Constituição. A expectativa agora é que as negociações salariais avancem de forma independente do debate sobre a autonomia administrativa do órgão.

Impacto prático

A principal mudança prática para os servidores do Banco Central é a manutenção, ao menos temporária, do atual regime jurídico único (RJU). Caso a PEC 65/2023 avance e seja aprovada, a transformação do BC em empresa pública alteraria o regime de contratação para a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT).

Com a perda de força da proposta no Senado Federal, os servidores continuam sob a proteção da estabilidade do funcionalismo público federal e das regras previdenciárias próprias do setor. Por outro lado, as demandas da categoria por valorização salarial, reestruturação de carreiras e melhores condições de trabalho — que haviam sido atreladas ao debate da PEC — precisarão ser negociadas de forma isolada por meio de projetos de lei ordinária e acordos diretos com o Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos (MGI).

Para o servidor, isso significa que a luta por melhorias salariais e estruturais deixa de depender de uma complexa reforma constitucional e volta para a mesa de negociação sindical tradicional com o governo federal.

Fonte: JOTA

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