Colunata de edifício judiciário ao entardecer

Conjur · 27 de setembro de 2026

O que a obra Mulheres Detentas, de João do Rio, ensina sobre o sistema prisional

A clássica crônica investigativa de João do Rio sobre o cárcere feminino convida servidores da segurança pública e do sistema prisional a refletirem sobre a evolução das políticas de custódia e direitos humanos.

Referência: Conjur

A literatura e o jornalismo do início do século XX oferecem retratos profundos sobre as origens das instituições públicas brasileiras. Entre essas obras, destaca-se "Mulheres Detentas", um relato do escritor e jornalista João do Rio (1881-1921). O texto, que transita entre a crônica investigativa e o registro histórico, descreve a realidade de uma prisão feminina no Rio de Janeiro durante o processo de modernização urbana da capital federal.

Para os servidores públicos contemporâneos, especialmente aqueles que atuam no sistema penitenciário, na segurança pública e na assistência social, a obra funciona como um espelho histórico. Ela permite compreender as raízes das estruturas prisionais e a evolução do papel do Estado na custódia e na reinserção social de pessoas privadas de liberdade.

O retrato do sistema prisional no início do século XX

Em sua visita a uma prisão feminina da época, João do Rio utilizou sua sensibilidade jornalística para detalhar o ambiente, as condições de vida das detentas e a dinâmica interna da instituição. Naquele período, as prisões ainda carregavam forte herança de modelos punitivos severos, com pouca ou nenhuma estrutura voltada para a ressocialização ou para o atendimento de necessidades específicas de gênero.

A crônica evidencia a ausência de políticas públicas estruturadas, algo que hoje é debatido exaustivamente por gestores, policiais penais e defensores públicos. Ler essa descrição histórica permite contrastar o passado de improvisação com o atual esforço de profissionalização e regulamentação do sistema de execução penal.

A evolução das carreiras e das políticas públicas

Atualmente, o trabalho nas unidades prisionais brasileiras é regido pela Lei de Execução Penal (LEP) e por diretrizes de direitos humanos que buscam garantir a dignidade da pessoa humana. A criação da carreira de policial penal e a inserção de equipes multidisciplinares — compostas por psicólogos, assistentes sociais e médicos — representam avanços institucionais significativos em relação ao cenário descrito por João do Rio.

O conhecimento sobre a história das prisões ajuda os servidores a compreenderem a importância de protocolos modernos de atuação. A evolução das carreiras públicas no setor de custódia trouxe mais segurança jurídica e técnica para que os agentes desempenhem suas funções sem os arbítrios comuns do início do século passado.

A importância da perspectiva de gênero na segurança

"Mulheres Detentas" também foi pioneiro ao focar especificamente no público feminino encarcerado. Historicamente, os sistemas prisionais foram desenhados por homens e para homens, negligenciando as especificidades biológicas, sociais e familiares das mulheres.

Para as servidoras e servidores que gerenciam ou atuam em estabelecimentos penais femininos hoje, o debate sobre gênero é central. Diretrizes como o Marco Legal da Primeira Infância e decisões dos tribunais superiores sobre prisão domiciliar para gestantes e mães são reflexos diretos de uma evolução que começou a ser desenhada quando cronistas denunciaram o abandono dessas populações no passado.

Revisitar clássicos da literatura nacional ajuda a humanizar o olhar técnico dos agentes públicos, unindo a necessidade de manutenção da ordem com o respeito aos preceitos constitucionais vigentes no país.

Impacto prático

A resenha da obra histórica "Mulheres Detentas" serve como um ponto de reflexão crítica para os servidores que atuam no sistema prisional e na segurança pública. Embora não traga uma alteração legislativa imediata, a leitura convida o servidor a analisar a evolução histórica das condições de trabalho e de custódia.

Na prática, o resgate desse tipo de literatura reforça a importância da humanização do sistema penitenciário e do papel técnico e humanitário dos policiais penais e assistentes sociais. Compreender o passado ajuda a valorizar as conquistas de direitos e as regulamentações modernas que protegem tanto a integridade dos detentos quanto a segurança jurídica dos próprios servidores no exercício de suas funções diárias.

Fonte: Conjur

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